Greenwashing #3: Não caia na armadilha do “cruelty-free”

Olá pessoal, como estão?

Hoje queremos falar sobre um assunto polêmico. O termo “cruelty-free”. Ele se popularizou muito no mercado de cosméticos. Vemos, hoje em dia, muitas marcas e empresas investindo em linhas cruelty-free, até mesmo grandes multinacionais que sabemos que não são exatamente livres de crueldade.

Antes de mais nada, vamos à sua definição:

Cosmético cruelty-free:  O significado do termo em português é “livre de crueldade”. Na teoria, isso significa que o cosmético não possui nenhum envolvimento com testes em animais, seja pela empresa, por laboratórios terceirizados, pelo fabricante ou pelos fornecedores de ingredientes.

Parece simples, né?

O intuito dos selos cruelty-free é nobre. O objetivo deles é fazer com que o processo de compra de produtos sem testes em animais seja mais fácil e confiável.

Mas você sabe como funciona a certificação cruelty-free na prática? E o apelo? Será que um cosmético cruelty-free realmente evita todo tipo de crueldade com animais em seus produtos? Ou evita apenas a crueldade envolvida em testes em animais? Ou às vezes nem isso?

Queremos compartilhar com vocês algumas facetas dessa questão tão complexa para que vocês não caiam no #greenwashing. (Se você ainda não leu o nosso post sobre greenwashing, é só clicar aqui).

#1: O termo “Livre de crueldade” não é definido por lei.

Não há, em âmbito nacional ou internacional, uma regulamentação clara e específica sobre o alcance do marketing realizado pelos cosméticos cruelty-free. Além disso, atualmente, nenhuma agência do governo estabelece padrões para o uso do termo. Isso significa que as empresas podem dizer que um produto é cruelty-free, seja verdade ou não. Por conta disso, o greenwashing do termo ainda é bastante comum.

Como não existe um selo oficial e único regulado por lei que garanta que determinado produto não tenha sido testado em animais, organizações como a PEA, Cruelty-Free International ou PETA desenvolveram seus próprios mecanismos de identificar empresas que (supostamente) produzem cosméticos sem o uso de cobaias, sendo um deles o selo “cruelty-free“.

#2: Há algumas falhas e polêmicas nas certificadoras “cruelty-free”.

Há diversas certificadores cruelty-free e cada uma delas tem seus próprios critérios para certificar um produto. A maior crítica entre os veganos aos selos é que essas organizações não levam em conta toda a crueldade animal que realmente envolve a fabricação de um produto. Então, no fim, eles acabam induzindo o consumidor ao erro. Por exemplo, a organização PEA cita uma lista com diversas marcas supostamente “cruelty-free” que utilizam seu selo, entretanto, várias dessas marcas estão envolvidas com testes em animais por seus fornecedores, como comprovado no blog da AriVegan.

E além dos selos concedidos, certificados e fiscalizados por essas organizações, existem também selos criados e utilizados pelas próprias marcas dos produtos de forma arbitrária, sem que passem por qualquer processo de certificação. Algumas usam imagens muito parecidas com as dos selos oficiais ou até mesmo iguais, sem qualquer autorização dos seus proprietários (organizações), induzindo o consumidor ao erro.

Outro ponto é que algumas certificadoras cruelty-free concedem selos para produtos, e não para empresas. Isso significa que uma empresa pode até fazer testes em animais, mas se ela tiver um único produto que é completamente livre de testes, esse produto poderá receber o selo cruelty-free. Por isso há grandes multinacionais que, apesar de comprovadamente fazerem testes em animais, possuem produtos cruelty-free em seus portfólios. De um lado, muitos criticam, dizendo não fazer sentido que empresas que lucram com a crueldade animal possam se beneficiar do marketing de produtos livre de crueldade. Além disso, financiá-las seria o mesmo que financiar essa crueldade. Outros não veem problema e acham benéfico que essas empresas possam ter produtos cruelty-free, pois o alcance delas é muito grande, o que torna esses produtos mais acessíveis para todos. Além disso, consumir produtos cruelty-free dessas empresas seria uma forma de incentivá-las a produzir mais desses produtos, até que parem algum dia de vender produtos que envolvam crueldade.

#3: Cruelty-free ≠ vegano.

Os produtos cruelty-free podem conter ingredientes de origem animal. Isso é, inclusive, permitido pelas certificadoras. Em todas elas, não há nenhuma restrição quanto a presença de ingredientes de origem animal no produto. Por exemplo, um cosmético que possui pelos/penas de animais, gordura animal, cera de abelha, lanolina e centenas de outros componentes de origem animal em sua composição pode ser classificado como “cruelty-free”.

Isso é muito controverso, pois a obtenção desses ingredientes envolve muita crueldade. Vejam alguns exemplos:

Lanolina: A lanolina é uma emulsão de gordura, obtida na lavagem da lã de carneiro. Possui propriedades umectantes para a pele. Ela é um subproduto da indústria da lã. Para aumentar o lucro, cientistas têm criado espécies de ovelhas que têm lã em demasia. Isso faz com que muitas ovelhas morram de calor no verão, enquanto outras morrem de frio no inverno depois de terem sua lã extraída.

Sebo: seja bovino ou suíno, o sebo é um subproduto da indústria da carne. Ele é muito utilizado na indústria de sabonetes e da cosmética e dá origem a ingredientes como a glicerina, por exemplo. Os animais da indústria da carne são tratados com muita crueldade, como se fossem objetos. São muitas vezes submetidos a mutilações, torturas e a condições precárias de vida.

Seda: Há alguns ingredientes derivados da seda, como “Silk amino acids” e “Hydrolyzed Silk”. Eles possuem propriedades fantásticas para a pele, porém o processo de obtenção da seda envolve jogar os casulos com os bichos vivos em água fervente para que os fios se desprendam e a produção se inicie. Há outro método para produção de seda chamado “Ahimsa”, que não implica na morte dos animais, porém há questões éticas quanto a esse método no que diz respeito à domesticação e exploração, além de trazer consequências, como mariposas adultas incapazes de voar, pois seus corpos ficam muito grandes, e machos muitas vezes ficam impossibilitados de se alimentar, porque partes de suas bocas não se desenvolvem corretamente.

Produtos derivados da abelha: Alguns ingredientes como o mel e cera de abelha são usados há anos na indústria de cosméticos por suas propriedades para a pele. Porém a extração desses produtos através da prática da apicultura envolve muita crueldade. Para a extração do mel é utilizado um método muito agressivo chamado fumigação. Nessa prática, o apicultor usa fumaça para atordoar as abelhas para que elas não o ataquem. Muitas abelhas morrem por asfixia ou queimadas pela fumaça. A retirada dos favos de mel também envolve muitas mortes, já que neste processo muitas das abelhas são esmagadas. Ao retirar o mel continuamente, as abelhas trabalham arduamente para produzir mais, pois o mel é o seu alimento. E por isso, é comum que as abelhas trabalhem até morrer de exaustão.

Por esses motivos, nós questionamos fortemente a validade da certificação cruelty-free, pois ela não evita todo o tipo de crueldade com os animais, já que aceita ingredientes de origem animal em sua formulação.

#4: Produtos cruelty-free podem ter ingredientes nocivos à vida marinha (e terrestre também!).

Não basta ser cruelty-free e vegano para ser completamente inofensivo aos animais. Um cosmético precisa ser tudo isso, ser feito com embalagens sustentáveis (dando preferência ao vidro, que é infinitamente reciclável, e papel, que é biodegradável) e também livre de substâncias tóxicas que podem prejudicar a vida.

Plásticos e microplásticos na formulação e nas embalagens: nos últimos anos vem surgindo uma conscientização em relação aos grandes malefícios do plástico à vida marinha. Muitos peixes, tartarugas e outros animais sofrem e morrem por conta do lixo plástico. Não seria essa também uma forma de crueldade mais silenciosa e indireta? Por isso, é muito importante evitar a todo custo produtos com embalagens plásticas e plástico na formulação.

 

Petroquímicos e outras substâncias tóxicas na formulação: Nessas últimas semanas, nos deparamos com uma imagem chocante: uma tartaruga encontrada toda suja de óleo no litoral do Nordeste. O derramamento de óleo foi um dos piores acidentes ambientais do litoral brasileiro e nós vimos o quanto os animais sofreram com isso. Porém nós utilizamos poluentes todos dias e não estamos falando sobre isso. Sempre que usamos cosméticos e produtos de higiene com derivados de petróleo e outras toxinas, estamos contribuindo para sufocar e destruir a vida, tanto marinha, quanto terrestre. Quando tomamos banho, todos esses produtos vão para o ralo. O nosso sistema de tratamento de água e esgoto não dão conta de tratar todas as centenas de químicos que vão parar em nossas águas. Inúmeras pesquisas já mostraram a presença de substâncias como triclosan em nossas águas.

Não seria essa poluição também uma crueldade com os animais, já que ela também é responsável por prejudicar a vida marinha?

Tudo isso que foi exposto não foi com o intuito de desvalorizar os cosméticos livres de crueldade. Pelo contrário – achamos muito vantajoso que produtos cruelty-free estejam tão na moda. Pra nós, é uma vitória muito grande ver gigantes da indústria focando nisso. Isso mostra que a sociedade está se importando cada vez mais com essas questões. Mas queremos que vocês vão além de um apelo de marketing do rótulo e questionem toda a crueldade que está envolvida em um produto de beleza. E que entendam que um produto cruelty-free muitas vezes não evita todo o tipo de sofrimento e exploração animal.

Referências:

https://www.sciencedaily.com/releases/2016/05/160525121602.htm

https://www.thebodyshop.com.br/beleza-do-mundo/voce-conhece-legislacao-brasileira-e-de-alguns-estados-sobre-os-testes-em-animais/

http://arivegan.com/2018/08/26/qual-a-diferenca-entre-produto-vegano-x-cruelty-free/

http://arivegan.com/2018/08/06/o-que-significa-o-termo-cruelty-free/

http://arivegan.com/2018/06/03/nunca-confie-em-selos-veganos-e-cruelty-free-entenda-os-motivos/

http://arivegan.com/2018/08/03/o-que-sao-ingredientes-de-origem-animal-seu-cosmetico-pode-conter-partes-do-corpo-de-animais/

https://ongteprotejo.org/br/articulos/a-import-ncia-da-certificacao-de-nao-teste-em-animais-na-industria-cosmetica/

https://olharanimal.org/o-mundo-perturbador-da-industria-da-seda/

https://thegoodnessfactory.in/blogs/blog/uncovering-the-ingredients-in-your-skincare-sodium-tallowate

https://www.vista-se.com.br/mel-relato-de-um-ex-apicultor-brasileiro-sobre-a-crueldade-envolvida-na-producao/

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Engenheira Química pela UFSCar, com pós graduação em Sustentabilidade pela Universidade da California em Los Angeles. Logo depois que terminou sua pós, começou a empreender na Jaci. Fez cursos de saboaria natural no Santo Sabão, se formou como aromaterapeuta pela Aromaflora e é certificada em Advanced Organic Skincare Science pela Formula Botanica.
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