No começo dessa semana, uma pesada e escura fumaça invadiu diversas cidades sul-americanas. Às 15h de São Paulo, o céu parecia anunciar o fim do dia. Eu, que estava na cidade, olhei e imaginei vir uma chuva terrível e não entendi nada ao perceber que o dia se manteve assim, sem pingar uma gota sequer.
Apenas no dia seguinte descobri que o que ocorreu foi na verdade um deslocamento de massa de ar, que trouxe para cá vestígios de queimadas, ocorridas principalmente na Amazônia. Teria sido mais difícil de acreditar se as notícias que têm chegado até nós sobre o desmatamento da nossa floresta já não estivessem anunciando acontecimentos trágicos, mas ainda assim foi perturbador.
A Amazônia brasileira perdeu mais de uma Alemanha em área de floresta entre 2000 e 2017. Nesse ano, parece estar ainda pior. O instituto de pesquisa Imazon divulgou um relatório que aponta um crescimento de 66% no desmatamento na chamada Amazônia Legal no mês de julho de 2019, em comparação com o mesmo período no ano passado. O estudo mostra que, no mês, foi detectado o desmatamento de 1.287 km² na região – uma área que equivale à do município do Rio de Janeiro.
O Brasil vive a maior onda de queimadas dos últimos cinco anos, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O Programa Queimadas do instituto, vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, registrou 71.497 focos de incêndio entre os dias 1 de janeiro e 18 de agosto deste ano. O número é 82% maior do que o mesmo período do ano passado, quando foram registrados 39.194 focos de incêndio. A última grande onda é de 2016, com 66.622 focos de queimadas entre essas datas.
Segundo a geógrafa e diretora de ciência do IPAM, Ane Alencar, o aumento de incêndios deste ano não está relacionado a períodos de seca mais intensos ou a fenômenos climáticos, como o El Niño. Neste ano, a Amazônia viu menos dias consecutivos sem chuva do que a média entre 2016 e 2018. Dessa vez, a culpa não é do clima – é do desmatamento. Essa é a opinião dos especialistas. O agronegócio é a principal causa dessa destruição.
Esse céu negro me fez sentir, de novo, algo que tem sido bastante frequente ao me informar sobre algumas notícias recentes, principalmente na área ambiental: impotência. Aquele sentimento de querer fazer algo, mas não saber o que; de não ter poder algum para resolver as coisas, de estar de mãos atadas. Se vocês têm se sentido assim de alguma forma, você não está só. Por isso, resolvi reunir algumas dicas simples, do que é possível fazer para diminuir nosso impacto negativo e ajudar a estabelecer novas regras para esse jogo que está rolando há algum tempo:
1 – Diminuir o consumo de carne
Quem acompanha nosso trabalho, sabe que isso é algo que defendemos desde sempre, mas entenda, o foco aqui não é empurrar para vocês uma filosofia de vida, e sim reduzir danos. O cultivo de gado da forma e proporções que realizamos hoje no planeta não é sustentável. Os animais precisam de espaço para pastar, diversos quilos de ração e muitos litros de água. Sem contar todo o espaço que é necessário para a produção dos grãos que se serão usados para alimentá-los. Esse é um dos principais usos das terras desmatadas no Brasil, principalmente na Amazônia. Nossas florestas estão se tornando pasto e plantação de milho, soja e outras grandes monoculturas que irão alimentar inúmeros animais, mais de 238 milhões em 2019 (dado estimado pelo USDA). A população brasileira hoje é de cerca de 210 milhões de pessoas. Isso significa que há mais de um boi/vaca por pessoa no Brasil. Então estamos disponibilizando milhares de hectares de terra para alimentar milhões de bois, enquanto poderíamos estar alimentando pessoas.
Então já vimos que o consumo exacerbado de carne contribui para o desmatamento, e que absorve a maior parte dos grãos produzidos nas lavouras. Mas o problema da criação desses animais não para por aí. Esses animais ainda produzem dejetos tóxicos e a sua digestão produz metano, um dos gases responsáveis pelo efeito estufa. Em 2011, uma pesquisa do IPCC mostrou que 28% do metano produzido no mundo tinha como fonte os animais ruminantes, ocupando o primeiro lugar nessa produção. E sobre os dejetos, peguei em um manual de uma esterqueira e o seu dimensionamento é feito considerando o volume de dejetos de 100 litros/animal/dia, ou seja, são cerca de 252 mil litros de dejetos por segundo e sabemos que esse material não é propriamente tratado. Por isso, vão parar nos nossos oceanos, onde já são avistadas área enormes de zonas mortas (locais onde não há oxigênio o suficiente para que haja a manutenção da vida). Essas áreas mortas são causadas, além dos dejetos, por fertilizantes e agrotóxicos, ambos largamente usados para as monoculturas destinadas a alimentação dos animais da pecuária. E com esse assunto, introduzo a dica número 2:
2 – Consumir orgânicos
Já escutamos há um bom tempo sobre a importância de consumirmos produtos orgânicos. Os orgânicos, diferente dos produtos tradicionais, não utilizam em sua produção agrotóxicos, nem fertilizantes sintéticos, além de não serem geneticamente modificados.
Eles também visam promover uma produção econômica e socialmente sustentável, recorrendo ao uso de adubo orgânico, sistemas de rotação de culturas, prevenção e controle das pragas naturais sem o uso de pesticidas, dentre outras técnicas limpas. Os benefícios dessas formas de produção são muitas, pois as produções convencionais acabam por utilizar produtos que contaminam nossos solos e águas, exaurem os nutrientes da terra e intoxicam os produtores e consumidores desses alimentos.
Só esse ano, foram liberados mais de 290 agrotóxicos e é considerado o ritmo mais alto já registrado para o período. Todos esses produtos no fim vão parar nas nossas águas, e fica difícil fugir das consequências dessa ação, mas conseguimos reduzir bastante o consumo de agrotóxicos ao consumir orgânicos. Não existe um momento melhor para incentivarmos essa forma de produção. Como consumidores, temos o poder de moldar o mercado, e com o aumento do consumo de orgânicos, aumentará também a sua produção. Entendemos que os ingredientes orgânicos normalmente são mais caros, ou mais difíceis de serem encontrados, mas se conseguirmos escolher pelo menos algum produto para modificar a nossa forma de consumo, já estamos contribuindo. Morangos, pimentões e tomates, por exemplo, são alguns dos vegetais que mais absorvem esses pesticidas. Se não for possível trocar todos os produtos por orgânicos, esses são bons lugares para começarmos. Você pode também procurar algum produtor, feira orgânica ou de agricultura familiar na sua cidade. Esses projetos são cada vez mais frequentes, e oferecem orgânicos a preços muito mais justos do que nas grandes redes de mercado.
3 – Consumir conscientemente
O consumo consciente também é uma das maneiras de reduzirmos drasticamente o nosso impacto negativo no planeta. E quando falamos de consumo, aqui, vale para tudo: água, energia, eletrônicos, moda, entre outros! Consumir conscientemente significa nos atentarmos aos impactos socioambientais, verificando a cadeia de produção (que envolve os trabalhadores, matérias-primas, processos de fabricação, dejetos), a forma de comercialização e o descarte desses produtos. Sabemos que muitos produtos sustentáveis são vendidos com preços mais altos que os convencionais, mas devemos lembrar nesse momento que tudo tem um custo. Às vezes conseguimos vê-lo representado em uma etiqueta, e outras, vemos o meio ambiente ou trabalhadores pagando por eles. Consumir consciente também engloba se perguntar o porquê daquela compra. Realmente preciso disso? Então é melhor comprarmos menos, produtos mais caros e de maior qualidade, do que adquirirmos uma porção de produtos baratos, que virarão lixo em pouco tempo ou que nunca nem serão utilizados.
Entendemos também que não é todo mundo que tem poder aquisitivo para realizar as mudanças para produtos 100% sustentáveis, mas podemos escolher entre as nossas opções, aqueles que geram menos lixo, têm menos ingredientes tóxicos e que realmente precisamos.
E claro, cobrar do governo e das empresas a mudança que esperamos ver nas regulações e em seus produtos.
4 – Meditar
Meditar significa estar no momento presente. Por muitas vezes, nos deparamos remoendo acontecimentos passados ou sofrendo por antecipação com coisas que nem ocorreram. Ao estarmos conectados com o agora, conseguimos perceber e aproveitar as coisas boas que estão acontecendo próximas de nós.
Muito do que tem ocorrido no nosso país, e mais ainda, no nosso planeta, nos causa muitas angústias, stress e sofrimento. A meditação ajuda a aliviarmos essas sensações e ficarmos em paz com o nosso interior.
Além disso, muitas pessoas que praticam a meditação e estudam seus benefícios dizem que além de alterar as vibrações cerebrais do próprio praticante, a técnica auxilia também na alteração das pessoas no seu entorno, assim, ao meditarmos conseguimos criar um cordão mais forte, de pessoas mais centradas e mais conscientes, que vão, junto conosco, definir um futuro melhor para a nossa sociedade.
Nesses momentos de impotência, vamos resgatar nossa força e fazer a nossa parte. Juntos podemos mais.
E você? Tem alguma dica para compartilhar conosco?
Fonte:
https://www.ecycle.com.br/6414-consumo-consciente
http://www.farmnews.com.br/gestao/dados-da-pecuaria-de-corte/